A Máfia dos Pastores: Como ir a uma Igreja Aumenta o Roubo de Dízimos

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Recentemente, me deparei com o livro de Yago Martins, A Máfia dos Mendigos: Como a Caridade Aumenta a Miséria. Confesso que o título já me causou desconforto, e ao lê-lo, minha insatisfação só aumentou. É por isso que resolvi escrever este artigo de opinião para questionar e criticar as ideias apresentadas por Martins. Quero deixar claro desde o início que o título que escolhi para este texto, A Máfia dos Pastores: Como ir a uma Igreja Aumenta o Roubo de Dízimos, é uma falácia proposital. Assim como o título do livro de Martins, o meu também visa provocar e chamar a atenção para um debate mais profundo sobre as generalizações e preconceitos que perpetuamos muitas vezes sem refletir (apesar que o dele transpira perversidade sem retroceder).

A Falácia do Título

Assim como o título de Martins, meu título sugere uma conclusão generalizada e enganosa. Afirmar que todas as igrejas são centros de roubo de dízimos é tão absurdo quanto dizer que a caridade aumenta a miséria. Há pessoas boas e más em todos os lugares, seja nas igrejas, nas ruas ou em qualquer outro contexto social. É irresponsável e reducionista afirmar que uma instituição ou um grupo de pessoas é inteiramente corrupto, ou nocivo com base em experiências isoladas.

A Realidade das Pessoas em Situação de Rua

Um dos pontos que mais me incomodou no livro de Martins foi a sugestão de que as pessoas em situação de rua estão lá por mera vagabundagem. Essa visão é não só simplista, mas profundamente ignorante das complexas realidades que levam alguém a viver nas ruas. Problemas de saúde mental, falta de apoio familiar, desemprego e muitas outras questões contribuem para essa situação. Desumanizar essas pessoas e ignorar suas histórias é uma forma de perpetuar a injustiça e a exclusão social.

Mesmo que um indivíduo em situação de rua seja visto como “vagabundo” no sentido pejorativo da palavra, isso não justifica negar sua necessidade de ajuda. A fome e a necessidade de sobrevivência não escolhem caráter. Todo ser humano merece dignidade e assistência básica, independentemente de seu passado ou presente.

Hipocrisia e Contradições

No início do livro, Martins usa um texto de Lutero para fundamentar suas ideias. No entanto, o próprio Lutero reconhecia a importância de ajudar os mendigos, mesmo que fosse enganado por alguns. Isso revela uma contradição evidente na argumentação do autor. Ajudar os necessitados é um princípio fundamental de várias filosofias e religiões, e usar exemplos isolados de charlatanismo para justificar a negligência generalizada é uma postura profundamente falaciosa.

Experiência Falha

A narrativa de Martins sobre sua experiência disfarçado como pessoa em situação de rua também é problemática. Ele afirma ter percebido a invisibilidade dessas pessoas, mas, paradoxalmente, também as descreve de forma desumanizante, chamando-as de “ratos”. Isso demonstra uma falta de empatia e compreensão das verdadeiras experiências daqueles que vivem nas ruas. Por mais tempo que alguém passe disfarçado, essa pessoa sempre terá um lar, uma família e uma vida para retornar, algo que muitas pessoas em situação de rua não têm.

Além disso, é interessante notar que Martins, mesmo afirmando que as pessoas em situação de rua não são uma categoria diferente de indivíduos, inicia sua descrição usando termos depreciativos. Essa dissonância entre discurso e prática revela uma falha em sua experiência e análise.

Conclusão

Em suma, o radicalismo da premissa de Martins é perigoso porque nos leva a radicalizar qualquer outro ponto. Se começarmos a tratar todos os mendigos como fraudadores, onde traçaremos a linha? Da mesma forma, se tratarmos todas as igrejas como centros de corrupção, estamos ignorando o bem que muitas delas fazem. Precisamos de uma abordagem mais equilibrada e empática para entender e ajudar as pessoas em situação de rua.

É fácil criticar e julgar do conforto de nossas casas, mas a verdadeira compaixão e justiça vêm de entender e agir com base nas complexidades da realidade. Ao invés de fechar as portas da caridade, devemos trabalhar para torná-la mais eficaz e justa, reconhecendo a dignidade e a humanidade de todos, independentemente de sua situação atual.

Referência

BibliON – A máfia dos mendigos (odilo.us)

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Paulo Freitas

Paulo Freitas

Paulo Freitas é teólogo, filósofo, professor e presbítero. Autista, escreve sobre fé, fragilidade, dor, neurodiversidade e tudo o que nos torna profundamente humanos.

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