A imagem retrata uma Bíblia aberta, emanando uma luz intensa e dourada. Duas mãos se estendem em direção ao livro, quase se tocando, evocando uma sensação de conexão espiritual ou divina. A luz que emerge das páginas parece vibrante, com faíscas e energia, sugerindo conhecimento sagrado, revelação ou inspiração. O fundo escuro realça o brilho místico da cena, criando uma atmosfera de mistério e transcendência. A imagem simboliza o poder da palavra escrita, a busca por sabedoria e o toque divino sobre o conhecimento humano.
Crítica

Contradições Evangélicas: Quando a Prática Nega a Fé

O meio evangélico contemporâneo é um campo fértil para contradições. Embora muitos se orgulhem de seguir a Bíblia como fundamento de sua fé, suas práticas muitas vezes revelam uma dissonância entre o que professam e o que vivem. Essa incoerência não apenas enfraquece o testemunho cristão, mas também levanta questões profundas sobre a natureza da fé, da teologia e da filosofia que sustentam essas ações. Afinal, como podemos afirmar crer em um Deus de amor e verdade, enquanto nossas atitudes refletem rivalidade, julgamento e incoerência?

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Um dos exemplos mais evidentes dessa contradição está na forma como muitos evangélicos abordam a salvação. Há grupos que afirmam com veemência que “só Jesus salva”, mas, paradoxalmente, gastam suas energias pressionando as pessoas a se tornarem cristãs. Se realmente creem que a salvação é obra exclusiva de Cristo, por que agem como se dependesse de seus esforços convencer alguém? A insistência em “converter” os outros parece ignorar a própria doutrina que professam. Se Jesus é o Salvador, não seria mais coerente confiar nEle e simplesmente testemunhar, em vez de tentar forçar uma decisão? Do mesmo modo, se a pessoa pode responder positiva ou negativamente ao chamado de Cristo para ser salva, não há o que discutir caso ela diga “não”.

Outro ponto de tensão é a disputa entre calvinistas e arminianos. Os primeiros defendem que a salvação é um decreto divino, enquanto os segundos enfatizam o livre-arbítrio humano. No entanto, ambos os lados parecem ignorar as implicações de suas próprias crenças. Se os calvinistas creem que Deus já escolheu os eleitos, por que se desgastam em convencer os arminianos de sua visão teológica? Se Deus já determinou tudo, não seria o arminianismo também parte de Seu plano? Por outro lado, se os arminianos creem no livre-arbítrio, por que se incomodam tanto com os calvinistas, que simplesmente escolheram crer de forma diferente? A ironia é que ambos os lados afirmam seguir a Bíblia, mas suas brigas parecem negar o amor e a unidade que ela prega.

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A incoerência se estende também ao relacionamento com os descrentes. Muitos cristãos acreditam que, sem Deus, o homem está “morto em seus pecados” e incapaz de se converter sem a ação do Espírito Santo. No entanto, esses mesmos cristãos frequentemente se engajam em debates acalorados com ateus, como se pudessem convencê-los por meio de argumentos humanos. Se a salvação é obra de Deus, por que agimos como se dependesse de nossa capacidade de persuasão? A Bíblia nos chama a pregar “Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2:2), não a ameaçar com o inferno ou condenar os pecados alheios. Afinal, a pregação do inferno não salva ninguém; apenas o amor e a graça de Cristo têm poder transformador.

A rivalidade entre católicos e protestantes é outro exemplo de contradição. Ambos os grupos afirmam seguir a Bíblia, mas se acusam mutuamente de não serem verdadeiros cristãos. Se ambos creem nas Escrituras, por que não podem reconhecer que a verdade liberta, independentemente das diferenças denominacionais? Em vez de se degladiarem, não seria mais coerente amar uns aos outros e confiar que Deus é soberano para guiar cada um à verdade? Afinal, como disse Jesus, “nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35).

Por fim, a politização da fé é talvez uma das contradições mais gritantes. Muitos cristãos pregam o amor ao próximo, mas se dividem e se hostilizam por causa de partidos políticos. Se o outro lado é descrente, valem todas as premissas anteriores: ele está morto em seus pecados e precisa da graça de Deus, não de nossa condenação. Se o outro lado é cristão, ele é nosso irmão, independentemente de suas opiniões políticas. Como podemos afirmar crer em um Deus que é amor, enquanto permitimos que diferenças políticas nos separem?

Em suma, as contradições no meio evangélico revelam uma desconexão entre a fé professada e a prática vivida. Se realmente cremos que Jesus é o Salvador, que Deus é soberano e que o amor é a marca do cristão, precisamos repensar nossas atitudes. A verdadeira fé não se expressa em brigas, julgamentos ou incoerências, mas em amor, humildade e confiança na obra de Deus. Que possamos, como cristãos, viver de acordo com a verdade que professamos, refletindo o caráter de Cristo em todas as nossas ações. Afinal, como disse Tiago, “a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tiago 2:17). Repensemos nossa vida cristã, para que nossa prática não negue nossa fé.

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Casado com Janaína e pai do Ulisses. Tutor da Zaira (Chow-Chow) e do Paçoca (hamster). Escritor por hiperfoco e autista de nascença. Membro e presbítero da Igreja REMIDI e missionário pelo PRONASCE. Teólogo, Filósofo e Pedagogo em formação. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva. Meus autores preferidos são: Agostinho, Kierkegaard, João Wesley, Karl Barth, Bonhoeffer, Tillich, C. S. Lewis, Stott e alguns pais da igreja. Meus hobbys são: ler, assistir filmes e séries.

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