A imagem está dividida em duas cenas, ambas com forte simbolismo cristão. Na parte esquerda, há um homem trajando vestes eclesiásticas dentro de uma igreja, carregando duas ovelhas nos ombros. A expressão séria e o ambiente sagrado, com vitrais e uma cruz ao fundo, sugerem a figura de um pastor que cuida de seu rebanho. A imagem transmite a ideia de liderança cansada e fadigada, trabalhando sozinha. Na parte direita, um grupo de pessoas vestidas com túnicas azuis está reunido em um ambiente de igreja, formando um semicírculo ao redor de um grande livro sagrado, que brilha intensamente com uma cruz dourada em sua capa. Acima do livro, uma pomba branca paira, irradiando luz, simbolizando o Espírito Santo. A cena evoca a presença divina, a iluminação espiritual e o estudo comunitário das Escrituras, possivelmente representando um momento de culto ou adoração em que todos atuam conjuntamente.
Crítica

Igrejas Adultas ou Crianças Espirituais?

A imagem de uma igreja que desmorona na ausência do pastor é, infelizmente, uma realidade em muitas comunidades cristãs hoje. Ouvimos frequentemente líderes afirmando: “Minha igreja precisa de mim, ela não funciona sozinha”, ou “Se eu sair por um mês, tudo desanda”. Essas declarações, embora possam refletir uma preocupação genuína, também revelam uma triste verdade: muitas igrejas, mesmo após anos de existência, ainda agem como crianças espirituais, incapazes de caminhar sem o constante auxílio de um líder. Mas qual é a raiz desse problema? E como podemos, à luz das Escrituras, repensar essa dinâmica?

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A Dependência Infantil das Igrejas

A analogia de uma igreja como uma criança recém-nascida, dependente do “leite espiritual” fornecido pelo pastor, é perturbadoramente precisa em muitos casos. A carta aos Hebreus (Hebreus 5:12-14) critica essa imaturidade, dizendo: “Pois, embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Vocês precisam de leite, e não de alimento sólido!”. O autor bíblico esperava que os crentes crescessem, assumissem responsabilidades e se tornassem capazes de ensinar e cuidar uns dos outros. No entanto, muitas igrejas modernas parecem estagnadas nessa fase infantil, dependentes de líderes para tudo, desde o ensino até a resolução de conflitos.

A Terceirização da Fé

Parte desse problema reside na terceirização da fé. Muitos membros de igrejas delegam ao pastor todas as responsabilidades espirituais: o ensino, a oração, a visitação, a evangelização e até o cuidado pastoral. Essa mentalidade não apenas sobrecarrega os líderes, mas também priva os membros de crescerem em sua própria fé e ministério. Efésios 4:11-16 deixa claro que os líderes foram dados à igreja “para equipar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado”. O papel do pastor não é fazer tudo sozinho, mas capacitar os crentes para que todos exerçam seus dons e funções no corpo de Cristo.

O Exemplo de Paulo e as Igrejas da Galácia

Um exemplo bíblico que desafia essa dependência excessiva é o ministério do apóstolo Paulo na região da Galácia. Paulo fundou igrejas, ensinou os crentes e depois partiu, sem nomear líderes formais para cada comunidade. Ele confiava que os irmãos, fortalecidos pelo Evangelho e pelo Espírito Santo, seriam capazes de se cuidar mutuamente. Isso não significa que não houvesse desafios — a própria Epístola aos Gálatas aborda problemas doutrinários —, mas Paulo não via a ausência de um líder como uma ameaça à sobrevivência da igreja. Ele acreditava na capacidade dos crentes de viverem o Evangelho e de se edificarem uns aos outros.

O Problema dos Pastores Indispensáveis

Por outro lado, alguns pastores contribuem para essa dinâmica disfuncional ao se verem como indispensáveis. Essa mentalidade pode surgir de uma boa intenção — o desejo de cuidar do rebanho —, mas também pode refletir uma necessidade de controle ou uma falta de confiança na obra do Espírito Santo. Em 1 Pedro 5:2-3, os líderes são exortados a pastorear o rebanho de Deus, “não como dominadores sobre os que lhes foram confiados, mas como exemplos”. Um pastor que se vê como insubstituível pode, mesmo sem intenção, impedir o crescimento e a maturidade da congregação.

A Necessidade de Maturidade Coletiva

A solução para esse problema não é simples, mas começa com uma mudança de mentalidade tanto dos líderes quanto dos membros. Os pastores precisam confiar mais no Espírito Santo e menos em seu próprio controle, capacitando os membros para o ministério e incentivando a autonomia espiritual. Os membros, por sua vez, precisam assumir responsabilidades, exercer seus dons e parar de terceirizar sua fé. A igreja é um corpo, e cada membro tem um papel vital a desempenhar (1 Coríntios 12:12-27).

Conclusão: Crescendo para a Maturidade

A pergunta que devemos nos fazer é: estamos vivendo como uma igreja adulta, capaz de se sustentar pela Palavra e pelo Espírito, ou ainda estamos engatinhando, dependentes de líderes para nos alimentar? A maturidade espiritual não é opcional; é um mandato bíblico. Precisamos repensar nossas práticas, abandonar a dependência infantil e abraçar a responsabilidade coletiva que nos foi dada em Cristo. Afinal, como Paulo escreveu aos Gálatas, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gálatas 5:1). E essa liberdade inclui a capacidade de caminhar juntos, como irmãos maduros, no serviço do Reino.

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Casado com Janaína e pai do Ulisses. Tutor da Zaira (Chow-Chow) e do Paçoca (hamster). Escritor por hiperfoco e autista de nascença. Membro e presbítero da Igreja REMIDI e missionário pelo PRONASCE. Teólogo, Filósofo e Pedagogo em formação. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva. Meus autores preferidos são: Agostinho, Kierkegaard, João Wesley, Karl Barth, Bonhoeffer, Tillich, C. S. Lewis, Stott e alguns pais da igreja. Meus hobbys são: ler, assistir filmes e séries.

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