Honrando os Pais, Não Seus Erros

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Na cultura em que muitos de nós fomos criados, a violência física como forma de correção foi normalizada. Pais acreditavam que, ao bater em seus filhos, estavam moldando seu caráter e ensinando respeito. Mas será que essa violência realmente contribuiu para o nosso bem-estar? A reflexão de Leiliane Rocha, “Você não é o que é porque apanhou, você é o que é apesar de ter apanhado”, nos convida a reavaliar a relação entre a disciplina e o uso da força física.

A Bíblia, um guia moral para milhões de pessoas, nos instrui claramente a honrar nossos pais (Êxodo 20:12), mas não nos pede para honrar os erros deles. Existe uma diferença crucial entre respeito e perpetuação de padrões destrutivos. Muitas vezes, justificamos os atos de violência de nossos pais dizendo que “foi para o nosso bem” ou que “era assim que as coisas funcionavam”. Porém, é preciso reconhecer que, se nossos pais tivessem acesso à ampla gama de conhecimento que temos hoje sobre psicologia infantil e educação, talvez jamais tivessem recorrido à violência.

A sabedoria de Lya Luft nos lembra que “A infância é um chão que a gente pisa a vida inteira”. Esse terreno, que deve ser fértil e seguro, não pode ser adubado com traumas e dor. Crianças, quando expostas à violência, crescem com cicatrizes emocionais que as acompanham por toda a vida. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é claro ao afirmar o direito das crianças à integridade física e emocional, e rejeita a prática de violência como meio de disciplinar.

No entanto, não podemos demonizar nossos pais. Eles, assim como nós, fizeram o melhor que podiam com as ferramentas que tinham à disposição. Mas isso não significa que a violência os justifica. Nossas conquistas e nosso caráter não surgiram “graças” às agressões físicas que sofremos, mas apesar delas. Foram os momentos de afeto, diálogo e exemplo que realmente nos moldaram. Assim como Jesus nos ensina a tratar o próximo com amor (Mateus 22:39), precisamos reconhecer que o caminho da violência é incompatível com o ensino do amor.

Os tempos mudaram, e com eles, nossa compreensão sobre como educar uma criança. A ciência nos oferece hoje uma infinidade de recursos e métodos que permitem a criação de seres humanos emocionalmente saudáveis, sem recorrer à violência. Crianças são únicas e possuem uma estrutura emocional sensível, que deve ser respeitada e cuidada com paciência e compreensão. O próprio Jesus mostrou, ao acolher as crianças, que elas devem ser tratadas com respeito e ternura (Marcos 10:14).

Portanto, a violência, em qualquer forma, não é justificável. É hora de parar de honrar a violência dos nossos pais e começar a honrar sua luta e sacrifício ao criarem seus filhos da melhor maneira que podiam. Hoje, temos a oportunidade de fazer diferente e melhor. Educar sem violência não é apenas um direito garantido pelo ECA, é um imperativo moral e bíblico.

Assim como somos chamados a sermos transformados pela renovação da nossa mente (Romanos 12:2), devemos renovar também nossa prática educativa, rejeitando a agressão e abraçando o diálogo, a compreensão e o respeito à individualidade dos nossos filhos. Eles não são reflexos de nós, assim como nós não somos meros reflexos de nossos pais. Cada ser humano é único, com seu próprio potencial e desafios.

Educar sem violência é uma demanda urgente do nosso tempo. Faz parte do nosso chamado cristão e da nossa responsabilidade social garantir que nossas crianças cresçam num ambiente onde prevaleçam o amor, a segurança e o respeito. Abandonar a educação violenta não significa trair nossas raízes, mas sim, honrá-las, levando adiante o melhor que recebemos e deixando para trás o que nunca deveria ter sido parte da nossa história.

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Paulo Freitas

Paulo Freitas

Paulo Freitas é teólogo, filósofo, professor e presbítero. Autista, escreve sobre fé, fragilidade, dor, neurodiversidade e tudo o que nos torna profundamente humanos.

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