A imagem mostra um jovem de cabelos bagunçados e expressão alegre, sorrindo amplamente enquanto escova os dentes no banheiro. Seu rosto está coberto de espuma de creme dental ao redor da boca, criando um efeito engraçado. Ele segura uma escova de dentes azul e parece estar se divertindo com o momento. O fundo tem azulejos verdes e um toalheiro com uma toalha branca pendurada, reforçando o ambiente de um banheiro.
Autismo,  Neurodiversidade

Autismo e Estereótipos sobre a Inteligência

O autismo é um tema que, apesar de ganhar cada vez mais visibilidade, ainda é cercado por estereótipos e mal-entendidos. Uma das maiores confusões é a associação direta entre autismo e inteligência. A realidade, porém, é que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não está intrinsecamente ligado a um nível específico de inteligência. Pessoas autistas podem ter uma inteligência acima da média, podem estar na média da população ou podem apresentar deficiência intelectual (DI). Essa diversidade é crucial para entendermos que o autismo não é uma condição única, mas um espectro amplo e multifacetado.

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Autismo e Inteligência: uma relação complexa

É comum ouvirmos histórias de autistas com altas habilidades (AH) ou superdotação (SD), como aqueles que memorizam enciclopédias, tocam instrumentos com maestria ou resolvem problemas matemáticos complexos. Esses casos, embora impressionantes, não representam a totalidade do espectro. Da mesma forma, há autistas com inteligência dentro da média, que podem levar vidas comuns, mas ainda assim enfrentam desafios diários relacionados à comunicação, interação social e processamento sensorial. Por outro lado, há autistas com deficiência intelectual, que podem precisar de mais suporte para atividades cotidianas, mas que também são capazes de se desenvolver e alcançar conquistas significativas.

O que todas essas pessoas têm em comum, independentemente de seu nível de inteligência, é a necessidade de suporte. O fato de um autista ter habilidades excepcionais em uma área não significa que ele não precise de ajuda em outras. Tarefas simples, como escovar os dentes, amarrar os sapatos, fazer amizades ou organizar uma rotina, podem ser desafios significativos. Isso ocorre porque o autismo afeta o funcionamento executivo, a capacidade de planejamento e a organização, aspectos que muitas vezes são subestimados.

O mito da independência e o custo do “mascaramento”

Um dos maiores equívocos é acreditar que autistas com altas habilidades ou superdotação são mais independentes. A verdade é que muitos desses indivíduos desenvolvem a capacidade de “mascarar” suas características autistas, um processo conhecido como “camuflagem social”. Eles aprendem a imitar comportamentos neurotípicos, a fazer contato visual forçado ou a seguir scripts sociais previamente ensaiados. No entanto, esse esforço constante é exaustivo e pode levar a um fenômeno conhecido como “burnout autístico”, caracterizado por fadiga extrema, ansiedade e depressão.

Não é à toa que autistas de alto funcionamento (AAF) estão entre os grupos com maior risco de suicídio. Essas pessoas são mais conscientes de sua realidade e das expectativas sociais ao seu redor, mas muitas vezes se sentem incapazes de atender a essas demandas ou de se envolver plenamente com o mundo. A dissonância entre o que são e o que o mundo espera que sejam pode ser profundamente angustiante.

Os estereótipos e a desumanização do autismo

A sociedade tende a criar estereótipos extremos sobre o autismo. De um lado, há a imagem do autista isolado, incapaz de se comunicar, sentado em um canto. Do outro, há a idealização do “gênio autista”, como o personagem de filmes que resolve problemas impossíveis ou o cientista brilhante que revoluciona o mundo. Essas representações, embora possam ter um fundo de verdade em casos específicos, não refletem a maioria das pessoas autistas.

A realidade é que a maioria dos autistas são pessoas comuns, com desafios e habilidades comuns, que desejam viver vidas comuns. Eles não são super-heróis nem vítimas indefesas; são seres humanos que, como todos nós, têm sonhos, medos e necessidades. A inteligência, seja ela acima da média, na média ou abaixo, não define o valor de uma pessoa autista. O que define é a compreensão, o respeito e o suporte que recebem.

A importância do suporte e da esperança

Independentemente do nível de inteligência, todas as pessoas autistas precisam de suporte. Para alguns, esse suporte pode ser mais voltado para a educação e o desenvolvimento de habilidades sociais. Para outros, pode envolver assistência em tarefas cotidianas ou terapias para melhorar a comunicação. O importante é reconhecer que cada autista é único e que seu potencial só pode ser alcançado com o apoio adequado.

É igualmente crucial abandonar preconceitos e opiniões não fundamentadas. Confiar mais nas capacidades das pessoas autistas, esperançar mais em seu desenvolvimento e evitar julgamentos precipitados são atitudes que podem transformar vidas. Autistas com deficiência intelectual são capazes de se desenvolver e alcançar conquistas significativas, assim como autistas com altas habilidades ou superdotação precisam de suporte para lidar com desafios que vão além de suas habilidades intelectuais.

Conclusão: autismo é sobre humanidade

O autismo não é uma condição que define uma pessoa; é apenas uma parte de quem ela é. Pessoas autistas, independentemente de sua inteligência, são seres humanos comuns que enfrentam desafios extraordinários todos os dias. Compreender isso é o primeiro passo para construir uma sociedade mais inclusiva e empática. Precisamos abandonar os estereótipos, ouvir as vozes das pessoas autistas e oferecer o suporte que elas precisam para viver vidas plenas e significativas. Afinal, autismo não é sobre genialidade ou incapacidade; é sobre humanidade.

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Casado com Janaína e pai do Ulisses. Tutor da Zaira (Chow-Chow) e do Paçoca (hamster). Escritor por hiperfoco e autista de nascença. Membro e presbítero da Igreja REMIDI e missionário pelo PRONASCE. Teólogo, Filósofo e Pedagogo em formação. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva. Meus autores preferidos são: Agostinho, Kierkegaard, João Wesley, Karl Barth, Bonhoeffer, Tillich, C. S. Lewis, Stott e alguns pais da igreja. Meus hobbys são: ler, assistir filmes e séries.

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