
Minha Jornada Trabalhista, antes de Saber do Autismo
Algumas pessoas já me perguntaram como foi, para mim, trabalhar por tantos anos sem saber que era autista. A resposta, embora complexa, pode ser resumida em uma palavra: difícil e, fui me virando como dava. Mas, ao mesmo tempo, foi uma jornada repleta de aprendizados, desafios superados e descobertas que moldaram quem sou hoje.
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Minha trajetória profissional começou cedo, ainda na pré-adolescência, quando eu e meu irmão saíamos para vender picolés. Enquanto meu irmão tinha um talento natural para atrair clientes e vendia todos os seus picolés — às vezes até voltava para pegar mais —, eu, por outro lado, muitas vezes, mal conseguia vender um único picolé. Não sabia como chamar a atenção das pessoas, como me comunicar de forma eficaz. Pegava o carrinho e simplesmente caminhava pela cidade, perdido em meus pensamentos. Na época, não entendia por que aquilo era tão difícil para mim, mas hoje, olhando para trás, consigo ver que o autismo já estava presente, influenciando minha forma de interagir com o mundo. No geral, sempre fui péssimo para vender qualquer coisa, exceto, livros. Tenho uma capacidade imensa para vender livros.
Depois dos picolés, tentei outras coisas. Fui servente de pedreiro, mas logo percebi que aquilo não era para mim. Meu corpo sempre foi mais frágil, e carregar sacos de cimento ou realizar tarefas físicas exigia um esforço sobre-humano, que eu não conseguia alcançar. Lembro-me de uma vez em que o pedreiro, ao me pagar, disse que daria menos dinheiro porque eu não conseguia acompanhar o ritmo do trabalho. Aquilo me magoou, mas também me fez refletir: talvez eu precisasse encontrar algo que se alinhasse melhor com minhas habilidades.
Tentei carpir lotes, vender latinhas, mas nada parecia dar certo. Carpir um lote levava mais de um dia, e eu me sentia cada vez mais frustrado. Até que, um dia, passei em frente a uma loja que consertava computadores e pensei: “Como gostaria de trabalhar aqui, mesmo que fosse como ajudante”. Foi um daqueles momentos em que uma centelha de esperança acendeu dentro de mim. E, por incrível que pareça, na mesma noite, na escola, um rapaz que trabalhava nessa loja me abordou. Ele sabia que eu era inteligente e esforçado e me perguntou se eu gostaria de trabalhar lá. No dia seguinte, eu estava lá, contratado.
Meu salário era baixo — até menos do que ganharia como servente de pedreiro —, mas eu não me importava. Finalmente, havia encontrado algo que me fascinava. Aprendi tudo sobre computadores e eletrônicos e, em um ano, fui promovido de ajudante a técnico. Aos 16 anos, eu era o técnico de computadores mais jovem da cidade. Nem todos confiavam em mim por causa da minha idade, mas eu fazia o possível para provar meu valor. Fiquei lá por quase seis anos, até que decidi entrar para o seminário de teologia.
No seminário, continuei trabalhando com computadores para pagar meus estudos. Durante quatro anos, fui responsável por catalogar livros na biblioteca, criar pôsteres, cartazes e panfletos, cuidar da rede de computadores, cuidar das redes sociais, além de ajudar no atendimento aos alunos. Quando me formei, tornei-me auxiliar de secretária, mas ainda mantinha contato com a área de tecnologia, criando até um site para o seminário. Quando a secretária saiu, assumi o cargo por um ano e meio. Foi um período desafiador, pois lidar com o público era algo que me esgotava emocionalmente. O diretor percebeu isso e me transferiu para a área de marketing, onde eu podia focar mais no computador e menos no contato direto com as pessoas. Foi um alívio.
Paralelamente, comecei a dar aulas e descobri uma paixão por estar em sala de aula. No entanto, ao final de cada dia, eu chegava em casa completamente exausto, muitas vezes tendo um shutdown. Era o meu corpo e minha mente pedindo um descanso que eu não sabia como dar. Minha esposa me via chegar em casa, deitar no sofá e me desligar por mais de uma hora.
Depois do seminário, fui para a base missionária da Missão Nasce, onde eu e minha esposa cuidávamos de tudo. Apesar de gostar do trabalho, as pessoas reclamavam que eu não era tão presente. Hoje, entendo que era o autismo falando mais alto, mas na época, era apenas mais uma fonte de frustração. Após dois anos, tivemos que nos mudar por questões de saúde do nosso filho, descobrimos o diagnóstico dele de autismo, também o meu, e foi aí que entrei no meu emprego atual.
Desta vez, entrei como PCD (Pessoa com Deficiência), e minha condição autista foi levada em consideração. A empresa adaptou meu ambiente de trabalho, me mudando de setor até encontrar um lugar onde eu me sentisse confortável. Mesmo assim, passei meses sem conseguir conversar com as pessoas. Meu cérebro simplesmente congelava, e eu não conseguia encontrar palavras para dizer. Tive crises por causa de barulhos. Aos poucos, fui me adaptando e, hoje, estou bem estabelecido, até fui promovido.
Olhando para trás, vejo que houve muitos prejuízos e desafios ao longo do caminho. Isso mostra o quanto é importante receber ainda criança o diagnóstico de autismo e ter acesso a terapias. Mas também vejo a mão de Deus guiando cada passo, colocando-me nos lugares certos, nas situações certas. Alguns empregos eu jamais conseguiria fazer, mas outros — como trabalhar com computadores e tecnologia — foram verdadeiros presentes, permitindo que eu encontrasse meu lugar no mundo.
Minha história é uma prova de que, mesmo sem saber de todas as peças do quebra-cabeça, é possível seguir em frente, aprender e crescer. Hoje, com o diagnóstico de autismo, consigo entender melhor minhas dificuldades e celebrar minhas conquistas. E, acima de tudo, sou grato por cada desafio que me moldou e por cada oportunidade que me permitiu descobrir quem eu realmente sou.
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