A imagem apresenta um pássaro de aparência majestosa e etérea, voando em direção a várias mãos estendidas. A cena tem um tom artístico e surreal, com um fundo nebuloso e celestial, dando uma sensação de mistério e transcendência. As asas do pássaro parecem se dissolver em pequenos fragmentos, que podem ser interpretados como pedaços de papel, penas ou borboletas, reforçando uma simbologia de transformação, liberdade e efemeridade. As mãos ao redor parecem estar oferecendo acolhimento ou buscando contato com a ave, sugerindo um tema de conexão, esperança ou libertação. A paleta de cores escuras e douradas adiciona um ar dramático e contemplativo à composição.
Autismo,  Neurodiversidade

O Pássaro Não Precisa Explicar seu Voo

Há um pássaro pousado no meu peito. Ele não canta como os outros, não voa no mesmo ritmo, não escolhe os mesmos galhos. Às vezes, ele se esconde quando o mundo fala alto demais. Outras, ele se perde em cantos que só ele enxerga. Mas ele não está errado. Ele só é pássaro de um jeito diferente.

Hoje é 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, e eu queria dizer algo bonito, algo que fizesse você entender. Mas a verdade é que talvez você nunca vá entender de verdade — assim como eu nunca vou entender completamente como é ser você, neurotípico1, navegando o mundo com uma bússola que nunca treme nas suas mãos.

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Você já tentou explicar por que respira? Já tentou descrever a cor do céu para alguém que nunca enxergou? É assim que às vezes me sinto: como um pássaro tentando contar o que é voar, quando, para mim, voar nunca foi uma escolha — só existência. Ser autista não é um “modo de ser”, não é um traço de personalidade, não é um quebra-cabeça a ser decifrado. É simplesmente o meu céu, o meu ar, a minha forma de bater as asas.

Mas há coisas que doem. Dói quando as palavras grudam na garganta e não saem. Dói quando o barulho do mundo parece uma faca cortando os meus pensamentos. Dói quando me dizem que é “só uma textura”, “só um cheiro”, “só uma luz”, porque para mim nunca é “só”. É um furacão. E o que eu queria que você soubesse é que não é birra, não é frescura — é o meu corpo gritando que está em chamas enquanto você só vê fumaça.

Nós, autistas, aprendemos desde cedo a imitar vocês. A sorrir quando não sentimos vontade, a olhar nos olhos mesmo que queime, a engolir comidas que nos enchem de náusea só para não sermos “difíceis”. Aprendemos a nos dobrar para caber em um mundo que não foi feito para nós. E tudo o que pedimos é que, às vezes, vocês se desdobrem um pouco também.

Se não entender, tudo bem. Mas respeite. Se não souber como agir, pergunte. Se vir um de nós sozinho, não assuma que é por não gostar de gente — pode ser só que estamos cansados, que precisamos recarregar as asas antes do próximo voo. E se você tiver paciência para esperar, talvez descubra que, por trás do nosso silêncio, há universos inteiros esperando para serem compartilhados.

No fim, não precisamos que você entenda o autismo. Só precisamos que você entenda que somos humanos, tão cheios de luz e de sombra quanto qualquer um. E que, às vezes, o maior ato de amor não é decifrar o voo do pássaro, mas simplesmente deixar que ele voe.


  1. Neurotípico é alguém que tem o funcionamento do cérebro comum ou semelhante à maioria das pessoas. Aquele que não é autista. ↩︎

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Casado com Janaína e pai do Ulisses. Tutor da Zaira (Chow-Chow) e do Paçoca (hamster). Escritor por hiperfoco e autista de nascença. Membro e presbítero da Igreja REMIDI e missionário pelo PRONASCE. Teólogo, Filósofo e Pedagogo em formação. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva. Meus autores preferidos são: Agostinho, Kierkegaard, João Wesley, Karl Barth, Bonhoeffer, Tillich, C. S. Lewis, Stott e alguns pais da igreja. Meus hobbys são: ler, assistir filmes e séries.

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