O Pássaro Não Precisa Explicar seu Voo
Há um pássaro pousado no meu peito. Ele não canta como os outros, não voa no mesmo ritmo, não escolhe os mesmos galhos. Às vezes, ele se esconde quando o mundo fala alto demais. Outras, ele se perde em cantos que só ele enxerga. Mas ele não está errado. Ele só é pássaro de um jeito diferente. Hoje é 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, e eu queria dizer algo bonito, algo que fizesse você entender. Mas a verdade é que talvez você nunca vá entender de verdade — assim como eu nunca vou entender completamente como é ser você, neurotípico, navegando o mundo com uma bússola…
Autismo e Estereótipos sobre a Inteligência
O autismo é um tema que, apesar de ganhar cada vez mais visibilidade, ainda é cercado por estereótipos e mal-entendidos. Uma das maiores confusões é a associação direta entre autismo e inteligência. A realidade, porém, é que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não está intrinsecamente ligado a um nível específico de inteligência. Pessoas autistas podem ter uma inteligência acima da média, podem estar na média da população ou podem apresentar deficiência intelectual (DI). Essa diversidade é crucial para entendermos que o autismo não é uma condição única, mas um espectro amplo e multifacetado. Leia também: Autismo: Deficiência e Neurodiversidade Autismo e Inteligência: uma relação complexa É comum ouvirmos histórias…
O Pâncreas Invisível do Cérebro
Era uma tarde quente, e Júlia, mãe de um garoto autista, estava sentada no consultório da terapeuta, exausta das cobranças diárias que recebia. “Você precisa fazer ele sair mais”, diziam os parentes. “Ele precisa aprender a se enturmar”, sugeriam os professores. Para Júlia, tudo soava como um eco sem sentido. A terapeuta, percebendo o cansaço da mãe, propôs uma analogia: “Imagine se as pessoas olhassem para alguém com diabetes e dissessem: ‘Por que você não faz seu pâncreas trabalhar direito? É só querer!’ Absurdo, não é?” Júlia sorriu, mas a reflexão lhe atravessou como uma flecha. Sim, era absurdo exigir algo que o corpo não pode oferecer naturalmente. Mas por…
Esquisito Para Quem? Normatividade e Autismo
Vivemos em uma sociedade que impõe, de maneira sutil ou explícita, normas sobre como devemos nos comportar, pensar e até sentir. Esta “normatividade social” cria um padrão usado para julgar comportamentos como aceitáveis ou “estranhos”. Para alguém como eu, autista, ser chamado de “esquisito” é uma experiência recorrente. Contudo, a pergunta que me faço é: esquisito em relação a quem ou a quê? Leia também: A Desvantagem Social do Autista de Nível 1 A normatividade social é construída a partir de um consenso majoritário sobre o que é “normal”. Assim, características comportamentais de grupos sociais são generalizadas e cristalizadas como padrões. Alemães e suecos são frequentemente descritos como frios e…
O Amor que Reconhece as Diferenças
Ao entrar na clínica onde meu filho, autista, realiza suas sessões de terapia, deparei-me com uma frase que, à primeira vista, parece acolhedora e cheia de boas intenções: “Enquanto existir amor, não haverá diferenças.” No entanto, ao refletir mais profundamente sobre essas palavras, percebo o quanto elas são problemáticas, principalmente quando aplicadas ao contexto da neurodiversidade. A neurodiversidade, como o próprio nome sugere, é o reconhecimento das diferenças neurológicas entre os indivíduos. Ela nos ensina que o cérebro humano pode funcionar de diversas maneiras, e essas variações são naturais e devem ser respeitadas. A frase na clínica, porém, parece sugerir que o amor tem o poder de apagar ou ignorar…
Sobre o Estranho Preconceito
O mundo tem suas normas não escritas. São como linhas invisíveis que tecem o comportamento, o pensar, o existir. E, para quem não se encaixa nelas, sobra o rótulo: estranho. “Que menino estranho”, ouvi durante toda a minha infância. Era como se o que eu fosse tivesse algo de errado, algo que devia ser corrigido, ajustado. O tempo passou, os olhares e os sussurros ficaram. A sociedade, tão obcecada pela ideia de uma normalidade única, esquece que cada um de nós é um universo complexo e irrepetível. Leia também: Hostilidade Contra Autistas de Nível 1 Curiosamente, ser chamado de “estranho” me fez pensar no que é ser normal. Não existe…